Entrei
naquele edifício branco, com paredes brancas, cadeiras brancas, portas brancas
e até pessoas de batas brancas. Toda aquela “luminosidade” e “puridade”
provocavam-me dores de cabeça e o cheiro a químicos e morte davam-me a volta ao
estômago.
Passei
pelo porteiro que, como já me conhecia, apenas me deu um cartão de visitante e
deixou-me entrar, sem fazer qualquer pergunta.
Segui
pelo corredor, evitando observar os humanos deitados nas macas que ali tinham
sido “estacionadas” e entrei no quarto.
-
Bom dia! – Cumprimentou-me com um largo sorriso nos lábios.
Retribui
o sorriso, aproximei-me da cama e beijei-lhe a testa.
-
Vieste em boa altura, os meus pais não vêm de manhã, e o enfermeiro sexy arranjou-me mousse de chocolate! –
Comentou animadamente apontando para o tabuleiro com o seu pequeno-almoço que
se encontrava na mesa amovível da cama.
Não
compreendia como ela podia estar tão bem humorada, mesmo estando ali, naquelas
condições. Mas a sua vivacidade permanente era uma das características que sempre
lhe invejara e que me faziam admirá-la tanto.
-
Estás com bom aspecto. – Comentei por fim.
-
O mesmo não se pode dizer de ti! – Respondeu, rindo-se em seguida. – Nem sequer
fizeste o risco nos olhos! Estavas assim tão desesperada por me ver?
-
Completamente! – Comentei rapidamente desviando o olhar do dela para a janela.
-
Dormiste mal de novo? – Ela conhecia-me demasiado bem.
-
Não me lembro… Não me lembro de adormecer, só de acordar. – Respondi.
-
Tu não voltaste a…
-
Já te disseram alguma coisa? – Interrompia rapidamente, já sabia o que ela me
ia perguntar, e não queria mentir-lhe.
O
seu sorriso desvanecera-se. O seu olhar, agora aterrorizado, dirigiu-se para as
suas mãos, que comprimiam entre os dedos os lençóis, também brancos, da cama do
hospital.
-
Vão ter que me mandar para uma clínica de reabilitação, provavelmente até ao
fim de semana… - Comentou engolindo em seco. – Não me vão deixar ter visitas
durante os primeiros meses.
As
suas faces coraram ao de leve e os seus olhos tornaram-se mais brilhantes, e
apesar de estar prestes a chorar, sabia que ela não o faria. Pelo menos não á
minha frente.
-
Devias vir comigo.
Ri-me.
-
Estou a falar a sério! Faria-te bem!
-
Eu não preciso disso!
-
Eu sei que ainda não largaste as drogas, está escrito em toda a tua cara! Não
podes enganar uma toxicodependente.
Suspirei
frustradamente. Pensei em negar a veracidade das suas palavras, mas discutir
com ela não me pareceu uma opção.
-
Se os teus pais me vissem lá, matavam-me. Eles já não gostam de mim, se me vissem
na mesma clínica que tu, iriam-me acusar de atrasar o teu tratamento, devido à má companhia que sou. - Comentei.
-
Palavras sábias, as tuas… Desde quando te tornaste tão inteligente?
Riu-se
da sua própria piada, enquanto eu apenas lhe sorri amavelmente, como fazia
desde o dia em que tive que entrar com o seu corpo moribundo nas urgências. Fechei
os olhos tentando afastar a memória daquele dia, ainda tão presente na minha
consciência. Não o conseguia esquecer.
-
Já comeste hoje? – Perguntou.
-
Já. – Menti.
-
Tens que comer, estás muito magra, e muito pálida. Estás com ar mais doente que
eu. E eu é que estou internada!
-
Preocupa-te unicamente com a tua saúde, agora. Eu cuido da minha.
-
És a minha melhor amiga, Suza, é normal que me preocupe contigo.
Olhei
para o relógio. Estava atrasada.
-
Eu sei, Rose.
Rosa
era a minha alma gémea. Éramos inseparáveis e imaginar a minha vida sem ela,
sem a presença da minha melhor amiga era insuportável. Mas desde daquele dia
que essa possibilidade me parecia mais real e assustadora.
-
Tens que ir, não é?
Acenei
afirmativamente. Despedi-me dela com dois beijos e sai apressadamente do
hospital.