Acordei
atordoada. Senti o meu corpo pesado e dormente, contorcendo-se contra a rigidez
do mesmo. Respirei profundamente e minúsculas partículas de pó apoderaram-se
das minhas narinas, originando um cheiro áspero e agonizante. Ao abrir os
olhos, ainda cansados, apercebi-me que tinha adormecido no tapete da sala. No
entanto, não me lembrava de como tinha lá chegado.
Levantei-me
a custo, apoiando-me no sofá duro, de modo a não cair devido às tonturas que
confundiam a minha visão e equilíbrio. Sentia-me fraca, enjoada, doente. Estava
de ressaca.
Com
o peso do corpo apoiado contra a parede e arrastando os pés no chão, dirigi-me
em passo lento até á casa de banho. Evitei o meu reflexo no espelho, pois
desconfiava da minha aparência. Um tom de pele extremamente pálido, uns olhos
ensanguentados e umas olheiras proeminentes. Passei a mão pelo cabelo,
sentindo-o empapado, resultado de uma noite atordoada.
Entrei
na banheira ainda com a roupa vestida, colocando-me por baixo da água corrente.
A sua temperatura gélida queimava-me a pele e provocava-me arrepios que se difundiam
pelos meus músculos e ossos, fazendo os meus dentes estremecerem
incontrolavelmente. Estava a castigar-me pela minha recaída de proporções
universais, pela desilusão que a Rose sentiria se me visse neste estado
decadente, uma possibilidade que me aterrorizava.
As
minhas memórias encontravam-se desalinhadas, incompletas, enubladas. Reduzidas
a pequenos fragmentos sem sentido, sem noção do tempo. Não sabia que dia era,
nem quantos tinham passado.
De
corpo e roupas ensopadas, dirigi-me para o quarto, deixando um rasto de pegadas
de água no soalho. Despejei o conteúdo da minha mala para cima da cama, com o
intuito de encontrar mais facilmente o telemóvel, o qual se encontrava
desligado. E assim permaneceu. Ignorei as minhas dúvidas quanto ao dia em que
me encontrava assim que vi as horas no relógio digital que se encontrava na mesa-de-cabeceira
ao lado da minha cama. Se me despachasse ainda conseguiria visitar a Rose.
Vesti
umas roupas secas e limpas e escovei rapidamente o cabelo, apanhando-o num
rabo-de-cavalo desmazelado de modo a disfarçar o seu mau aspecto. Peguei no
casaco de cabedal, nos óculos de sol e no mp3 e sai de casa. Num passo acelerado
dirigi-me até á paragem de autocarro, enquanto colocava os phones nos ouvidos e o volume no máximo.
Á
medida que me aproximava do hospital, a ansiedade aumentava. Tinha medo de a
ver. Não tinha uma razão que justificasse a minha ausência por um período de
tempo cuja duração me era uma incógnita. Respirei fundo e ao remexer no interior
dos bolsos do meu casaco encontrei o que restava de um maço de tabaco. Acendi
um dos cigarros acidentados e fumei-o apressadamente.
Percorri
os mesmos corredores que das outras vezes, senti a mesma náusea e desconforto,
ouvi os mesmos sons de pessoas que se queixavam de dores ou de familiares que vociferavam
o seu descontentamento por alguma razão que não tentava compreender.
O
mesmo segurança encontrava-se á porta e ao ver-me fez um ar admirado. Teria
passado assim tanto tempo?
-
Boa tarde. Que faz aqui?
-
Vim passear ao hospital, o cheiro a morte e as paisagens de pessoas moribundas
alegram-me o dia. – Respondi friamente, arrependendo-me segundos após o ter
feito. Possuía um certo conforto com ele, talvez por todas as vezes que já lá
tinha ido, talvez por ter sido o primeiro que socorreu ao meu grito de ajuda
quando entrei com o corpo da Rose nas urgências, o que me permitiu ser rude. –
Vim ver a Rose, como das outras vezes.
-
Ninguém te disse o que aconteceu?
-
O que aconteceu? O quê? Ela já foi recambiada para a clínica de reabilitação?
-
Não… Não foi isso. – O seu olhar triste, trespassou-me a alma. –Susana…
Não
o deixei terminar a frase, corri em direcção ao quarto da Rose, nas esperanças
de ele estar errado. Entrei no quarto, e no lugar da Rose encontrava-se um
desconhecido.
-
Onde está a rapariga deste quarto? – Perguntei agarrando-me á primeira
enfermeira que por ali passou.
-
Desculpe, mas a menina não pode estar aqui, vai ter que sair.
-
Por favor, diga-me só onde é que ela está… Ela chamava-se Rose…
-
Lamento. Ela morreu há dois dias atrás.
A
minha visão tornou-se instável e as minhas pernas perderam a força. Os sons á
minha volta assemelhavam-se a ecos e nada mais fazia sentido. Apenas conseguia
relembrar o dia em que entrei naquele hospital com o corpo moribundo da Rose
aos meus braços. Relembrar o medo e o desespero. As lágrimas que não secavam.
Os gritos de socorro e ajuda que todos ignoraram. As rezas a Deuses
inexistentes para que ela acordasse e para que tudo ficasse bem. Para que ele
ficasse bem. Teria dado a minha vida por ela…
Voltei
á realidade, acordei deitada numa cama de hospital com o segurança ao meu lado.
Ofereceu-me um copo com água e açúcar. Por momentos ficamos em silêncio.
-
Sabes há quanto tempo é que não vinhas cá?
Abanei
a cabeça negativamente.
-
Há 15 dias… A Rose andava preocupadíssima contigo, de tal maneira que quase que
roía os ossos dos dedos. – Soltou uma pequena risada, como se uma lembrança
agradável lhe tivesse surgido.
-
Que aconteceu?
-
Foi encontrada na sala dos medicamentos… Conseguiu roubar a chave a um dos
enfermeiros e quando deram pela falta já era tarde de mais.
-
Irónico. – Ri-me. Parecia uma lunática. – Foi exactamente pela mesma causa que
a fez cá chegar…
-
Lamento. Lamento imenso!
Sai
da cama:
-
Obrigada. Por tudo.
Sorriu
amigavelmente como resposta.
-
E espero não te voltar a ver… - Gracejei, fazendo-o libertar umas poucas
gargalhadas.
Despedi-me
e arrestei-me para fora do hospital.
(…)
-
Estou limpa há meio ano! Diz lá que não estás orgulhosa de mim?! - Conversava
animadamente com a Rose.
Não,
não estava doida. Nem morta! Estava no cemitério, a arruinar o arranjo floral
que a mãe da minha melhor amiga lá tinha deixado.
-
Um dia destes grafito-te a campa. – Ri-me, enquanto desorganizava as flores. –
A tua mãe matar-me-ia, mas seria por uma boa causa!
Olhei
para a fotografia, que despertou um sentimento nostálgico. Relembrei o mês que
passou após a descoberta da sua partida. Dias superados às escuras, fechada no
quarto. A ouvir música constantemente para abafar o som dos meus soluços de
desespero. As horas passadas a chorar, intercaladas com as que dormia devido á
fraqueza. A desmotivação para a vida, a vontade de acabar com tudo e desistir.
Tinha sido uma injustiça. Era uma injustiça. Ela ter ido e eu ter ficado. Devia
ter sido o oposto, já que ela sempre fora melhor pessoa que eu. Mas exactamente
por isso que eu decidi viver e lutar, para honrar a sua outrora existência,
tentando ser melhor do que alguma vez fui. Por ela e por mim. Suspirei. Olhei
mais uma vez para a campa antes que desaparecesse do meu campo de visão, á
medida que me aproximava da saída.
Tinha
tantas saudades dela…
The End
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