10 de outubro de 2013

Special K #2



Entrei naquele edifício branco, com paredes brancas, cadeiras brancas, portas brancas e até pessoas de batas brancas. Toda aquela “luminosidade” e “puridade” provocavam-me dores de cabeça e o cheiro a químicos e morte davam-me a volta ao estômago.
Passei pelo porteiro que, como já me conhecia, apenas me deu um cartão de visitante e deixou-me entrar, sem fazer qualquer pergunta.
Segui pelo corredor, evitando observar os humanos deitados nas macas que ali tinham sido “estacionadas” e entrei no quarto.
- Bom dia! – Cumprimentou-me com um largo sorriso nos lábios.
Retribui o sorriso, aproximei-me da cama e beijei-lhe a testa.
- Vieste em boa altura, os meus pais não vêm de manhã, e o enfermeiro sexy arranjou-me mousse de chocolate! – Comentou animadamente apontando para o tabuleiro com o seu pequeno-almoço que se encontrava na mesa amovível da cama.
Não compreendia como ela podia estar tão bem humorada, mesmo estando ali, naquelas condições. Mas a sua vivacidade permanente era uma das características que sempre lhe invejara e que me faziam admirá-la tanto.
- Estás com bom aspecto. – Comentei por fim.
- O mesmo não se pode dizer de ti! – Respondeu, rindo-se em seguida. – Nem sequer fizeste o risco nos olhos! Estavas assim tão desesperada por me ver?
- Completamente! – Comentei rapidamente desviando o olhar do dela para a janela.
- Dormiste mal de novo? – Ela conhecia-me demasiado bem.
- Não me lembro… Não me lembro de adormecer, só de acordar. – Respondi.
- Tu não voltaste a…
- Já te disseram alguma coisa? – Interrompia rapidamente, já sabia o que ela me ia perguntar, e não queria mentir-lhe.
O seu sorriso desvanecera-se. O seu olhar, agora aterrorizado, dirigiu-se para as suas mãos, que comprimiam entre os dedos os lençóis, também brancos, da cama do hospital.
- Vão ter que me mandar para uma clínica de reabilitação, provavelmente até ao fim de semana… - Comentou engolindo em seco. – Não me vão deixar ter visitas durante os primeiros meses.
As suas faces coraram ao de leve e os seus olhos tornaram-se mais brilhantes, e apesar de estar prestes a chorar, sabia que ela não o faria. Pelo menos não á minha frente.
- Devias vir comigo. 
Ri-me.
- Estou a falar a sério! Faria-te bem!
- Eu não preciso disso!
- Eu sei que ainda não largaste as drogas, está escrito em toda a tua cara! Não podes enganar uma toxicodependente.
Suspirei frustradamente. Pensei em negar a veracidade das suas palavras, mas discutir com ela não me pareceu uma opção.
- Se os teus pais me vissem lá, matavam-me. Eles já não gostam de mim, se me vissem na mesma clínica que tu, iriam-me acusar de atrasar o teu tratamento, devido à má companhia que sou. - Comentei.
- Palavras sábias, as tuas… Desde quando te tornaste tão inteligente?
Riu-se da sua própria piada, enquanto eu apenas lhe sorri amavelmente, como fazia desde o dia em que tive que entrar com o seu corpo moribundo nas urgências. Fechei os olhos tentando afastar a memória daquele dia, ainda tão presente na minha consciência. Não o conseguia esquecer.
- Já comeste hoje? – Perguntou.
- Já. – Menti.
- Tens que comer, estás muito magra, e muito pálida. Estás com ar mais doente que eu. E eu é que estou internada!
- Preocupa-te unicamente com a tua saúde, agora. Eu cuido da minha.
- És a minha melhor amiga, Suza, é normal que me preocupe contigo.
Olhei para o relógio. Estava atrasada.
- Eu sei, Rose.
Rosa era a minha alma gémea.  Éramos inseparáveis e imaginar a minha vida sem ela, sem a presença da minha melhor amiga era insuportável. Mas desde daquele dia que essa possibilidade me parecia mais real e assustadora.
- Tens que ir, não é?
Acenei afirmativamente. Despedi-me dela com dois beijos e sai apressadamente do hospital.

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