16 de dezembro de 2013

Special K #4 FINALE


Acordei atordoada. Senti o meu corpo pesado e dormente, contorcendo-se contra a rigidez do mesmo. Respirei profundamente e minúsculas partículas de pó apoderaram-se das minhas narinas, originando um cheiro áspero e agonizante. Ao abrir os olhos, ainda cansados, apercebi-me que tinha adormecido no tapete da sala. No entanto, não me lembrava de como tinha lá chegado.
Levantei-me a custo, apoiando-me no sofá duro, de modo a não cair devido às tonturas que confundiam a minha visão e equilíbrio. Sentia-me fraca, enjoada, doente. Estava de ressaca.
Com o peso do corpo apoiado contra a parede e arrastando os pés no chão, dirigi-me em passo lento até á casa de banho. Evitei o meu reflexo no espelho, pois desconfiava da minha aparência. Um tom de pele extremamente pálido, uns olhos ensanguentados e umas olheiras proeminentes. Passei a mão pelo cabelo, sentindo-o empapado, resultado de uma noite atordoada.
Entrei na banheira ainda com a roupa vestida, colocando-me por baixo da água corrente. A sua temperatura gélida queimava-me a pele e provocava-me arrepios que se difundiam pelos meus músculos e ossos, fazendo os meus dentes estremecerem incontrolavelmente. Estava a castigar-me pela minha recaída de proporções universais, pela desilusão que a Rose sentiria se me visse neste estado decadente, uma possibilidade que me aterrorizava.
As minhas memórias encontravam-se desalinhadas, incompletas, enubladas. Reduzidas a pequenos fragmentos sem sentido, sem noção do tempo. Não sabia que dia era, nem quantos tinham passado.
De corpo e roupas ensopadas, dirigi-me para o quarto, deixando um rasto de pegadas de água no soalho. Despejei o conteúdo da minha mala para cima da cama, com o intuito de encontrar mais facilmente o telemóvel, o qual se encontrava desligado. E assim permaneceu. Ignorei as minhas dúvidas quanto ao dia em que me encontrava assim que vi as horas no relógio digital que se encontrava na mesa-de-cabeceira ao lado da minha cama. Se me despachasse ainda conseguiria visitar a Rose.
Vesti umas roupas secas e limpas e escovei rapidamente o cabelo, apanhando-o num rabo-de-cavalo desmazelado de modo a disfarçar o seu mau aspecto. Peguei no casaco de cabedal, nos óculos de sol e no mp3 e sai de casa. Num passo acelerado dirigi-me até á paragem de autocarro, enquanto colocava os phones nos ouvidos e o volume no máximo.
Á medida que me aproximava do hospital, a ansiedade aumentava. Tinha medo de a ver. Não tinha uma razão que justificasse a minha ausência por um período de tempo cuja duração me era uma incógnita. Respirei fundo e ao remexer no interior dos bolsos do meu casaco encontrei o que restava de um maço de tabaco. Acendi um dos cigarros acidentados e fumei-o apressadamente.
Percorri os mesmos corredores que das outras vezes, senti a mesma náusea e desconforto, ouvi os mesmos sons de pessoas que se queixavam de dores ou de familiares que vociferavam o seu descontentamento por alguma razão que não tentava compreender.
O mesmo segurança encontrava-se á porta e ao ver-me fez um ar admirado. Teria passado assim tanto tempo?
- Boa tarde. Que faz aqui?
- Vim passear ao hospital, o cheiro a morte e as paisagens de pessoas moribundas alegram-me o dia. – Respondi friamente, arrependendo-me segundos após o ter feito. Possuía um certo conforto com ele, talvez por todas as vezes que já lá tinha ido, talvez por ter sido o primeiro que socorreu ao meu grito de ajuda quando entrei com o corpo da Rose nas urgências, o que me permitiu ser rude. – Vim ver a Rose, como das outras vezes.
- Ninguém te disse o que aconteceu?
- O que aconteceu? O quê? Ela já foi recambiada para a clínica de reabilitação?
- Não… Não foi isso. – O seu olhar triste, trespassou-me a alma. –Susana…
Não o deixei terminar a frase, corri em direcção ao quarto da Rose, nas esperanças de ele estar errado. Entrei no quarto, e no lugar da Rose encontrava-se um desconhecido.
- Onde está a rapariga deste quarto? – Perguntei agarrando-me á primeira enfermeira que por ali passou.
- Desculpe, mas a menina não pode estar aqui, vai ter que sair.
- Por favor, diga-me só onde é que ela está… Ela chamava-se Rose…
- Lamento. Ela morreu há dois dias atrás.
A minha visão tornou-se instável e as minhas pernas perderam a força. Os sons á minha volta assemelhavam-se a ecos e nada mais fazia sentido. Apenas conseguia relembrar o dia em que entrei naquele hospital com o corpo moribundo da Rose aos meus braços. Relembrar o medo e o desespero. As lágrimas que não secavam. Os gritos de socorro e ajuda que todos ignoraram. As rezas a Deuses inexistentes para que ela acordasse e para que tudo ficasse bem. Para que ele ficasse bem. Teria dado a minha vida por ela…
Voltei á realidade, acordei deitada numa cama de hospital com o segurança ao meu lado. Ofereceu-me um copo com água e açúcar. Por momentos ficamos em silêncio.
- Sabes há quanto tempo é que não vinhas cá?
Abanei a cabeça negativamente.
- Há 15 dias… A Rose andava preocupadíssima contigo, de tal maneira que quase que roía os ossos dos dedos. – Soltou uma pequena risada, como se uma lembrança agradável lhe tivesse surgido.
- Que aconteceu?
- Foi encontrada na sala dos medicamentos… Conseguiu roubar a chave a um dos enfermeiros e quando deram pela falta já era tarde de mais.
- Irónico. – Ri-me. Parecia uma lunática. – Foi exactamente pela mesma causa que a fez cá chegar…
- Lamento. Lamento imenso!
Sai da cama:
- Obrigada. Por tudo.
Sorriu amigavelmente como resposta.
- E espero não te voltar a ver… - Gracejei, fazendo-o libertar umas poucas gargalhadas.
Despedi-me e arrestei-me para fora do hospital.

(…)

- Estou limpa há meio ano! Diz lá que não estás orgulhosa de mim?! - Conversava animadamente com a Rose.
Não, não estava doida. Nem morta! Estava no cemitério, a arruinar o arranjo floral que a mãe da minha melhor amiga lá tinha deixado.
- Um dia destes grafito-te a campa. – Ri-me, enquanto desorganizava as flores. – A tua mãe matar-me-ia, mas seria por uma boa causa!
Olhei para a fotografia, que despertou um sentimento nostálgico. Relembrei o mês que passou após a descoberta da sua partida. Dias superados às escuras, fechada no quarto. A ouvir música constantemente para abafar o som dos meus soluços de desespero. As horas passadas a chorar, intercaladas com as que dormia devido á fraqueza. A desmotivação para a vida, a vontade de acabar com tudo e desistir. Tinha sido uma injustiça. Era uma injustiça. Ela ter ido e eu ter ficado. Devia ter sido o oposto, já que ela sempre fora melhor pessoa que eu. Mas exactamente por isso que eu decidi viver e lutar, para honrar a sua outrora existência, tentando ser melhor do que alguma vez fui. Por ela e por mim. Suspirei. Olhei mais uma vez para a campa antes que desaparecesse do meu campo de visão, á medida que me aproximava da saída.
Tinha tantas saudades dela…

The End

1 comentário:

  1. You're evil!! Em contrapartida o meu lado sádico achou brilhante. x)

    ResponderEliminar