O
meu despertador tocou. Levantei-me pesadamente e apoiei firmemente os pés
descalços no chão gélido, sentindo um arrepio percorrer-me a espinha. Tinha
adormecido de novo na casa de banho e tive que me dirigir à divisão do lado
para desligar o som irritante que me despertou. Voltei para a casa de banho e
coloquei-me debaixo do chuveiro. Não esperei que a água aquece-se, acabando por
tomar banho de água gelada, que me congelou a pele e me fez doer os ossos. Mas
a dor física nada se comparava com a instabilidade emocional em que me
encontrava.
Apercebi-me
que estava bastante consciente dos meus actos quando passei em frente do espelho
de “corpo inteiro” que se encontrava num dos cantos do meu quarto. Já não me
sentia assim há algumas semanas, senão meses. Observei o reflexo do meu corpo
nu e apercebi-me do estado degradado em que me encontrava.
A
minha pele estava coberta de inúmeras nódoas negras cuja origem desconhecia. Os
ossos das minhas articulações e costelas encontravam-se extremamente salientes,
dando-me um aspecto de sub nutrida, o que não era inteiramente mentira, e, agora
que pensava nisso, não me conseguia recordar da última refeição que realizara.
Olhei
para a minha cara, encontrava-se lastimável. Tinha olheiras bastante marcadas,
que salientavam mais os meus olhos avermelhados pelo sangue, e as minhas
bochechas antigamente arredondadas tinham desaparecido, deixando em seu lugar
uma cova marcada abaixo de um osso malar vistoso e proeminente. Era demasiado
alta e estava demasiado magra.
Do
armário arranquei do monte de roupa uns jeans pretos e um top preto de licra.
Calcei umas botas de tropa e prendi uma corrente nas presilhas das calças.
Procurei um elástico na minha cómoda desarrumada para prender o meu cabelo
desgastado e mal tratado com pontas espigadas evidentes. Relembrei-o como era a
alguns anos atrás. Longo, sedoso, bem tratado e sempre apresentável, com
algumas madeixas vermelhas e um volume exagerado e desejei que réstias desse
aspeto tivessem permanecido, unicamente por ser a única coisa que apreciava em
mim. Mas agora já nada disso interessava.
Abri
uma das gavetas da minha mesinha de cabeceira agradecendo a todos os santos por
ainda não ter terminado os charros já enrolados. Agarrei num par, metendo-os
dentro da mochila.
Sai
de casa e olhei em redor, tendo que me relembrar que já não tinha o carro.
Tinha o vendido para poder suportar o meu vício. Encolhi os ombros, ignorando
as lições de moral que teimavam em surgir no meu pensamento, e dirigi-me para a
paragem de autocarro.

*.* Beautiful!
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