3 de outubro de 2013

Special K #1


O meu despertador tocou. Levantei-me pesadamente e apoiei firmemente os pés descalços no chão gélido, sentindo um arrepio percorrer-me a espinha. Tinha adormecido de novo na casa de banho e tive que me dirigir à divisão do lado para desligar o som irritante que me despertou. Voltei para a casa de banho e coloquei-me debaixo do chuveiro. Não esperei que a água aquece-se, acabando por tomar banho de água gelada, que me congelou a pele e me fez doer os ossos. Mas a dor física nada se comparava com a instabilidade emocional em que me encontrava.
Apercebi-me que estava bastante consciente dos meus actos quando passei em frente do espelho de “corpo inteiro” que se encontrava num dos cantos do meu quarto. Já não me sentia assim há algumas semanas, senão meses. Observei o reflexo do meu corpo nu e apercebi-me do estado degradado em que me encontrava.
A minha pele estava coberta de inúmeras nódoas negras cuja origem desconhecia. Os ossos das minhas articulações e costelas encontravam-se extremamente salientes, dando-me um aspecto de sub nutrida, o que não era inteiramente mentira, e, agora que pensava nisso, não me conseguia recordar da última refeição que realizara.
Olhei para a minha cara, encontrava-se lastimável. Tinha olheiras bastante marcadas, que salientavam mais os meus olhos avermelhados pelo sangue, e as minhas bochechas antigamente arredondadas tinham desaparecido, deixando em seu lugar uma cova marcada abaixo de um osso malar vistoso e proeminente. Era demasiado alta e estava demasiado magra.
Do armário arranquei do monte de roupa uns jeans pretos e um top preto de licra. Calcei umas botas de tropa e prendi uma corrente nas presilhas das calças. Procurei um elástico na minha cómoda desarrumada para prender o meu cabelo desgastado e mal tratado com pontas espigadas evidentes. Relembrei-o como era a alguns anos atrás. Longo, sedoso, bem tratado e sempre apresentável, com algumas madeixas vermelhas e um volume exagerado e desejei que réstias desse aspeto tivessem permanecido, unicamente por ser a única coisa que apreciava em mim. Mas agora já nada disso interessava.
Abri uma das gavetas da minha mesinha de cabeceira agradecendo a todos os santos por ainda não ter terminado os charros já enrolados. Agarrei num par, metendo-os dentro da mochila.
Sai de casa e olhei em redor, tendo que me relembrar que já não tinha o carro. Tinha o vendido para poder suportar o meu vício. Encolhi os ombros, ignorando as lições de moral que teimavam em surgir no meu pensamento, e dirigi-me para a paragem de autocarro.

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